Reprodução/Lucas Leawry

A paixão me pegou

Tentei escapar, não consegui.

Nas grades do meu coração, sem querer, te prendi.

Cantaria dessa forma a banda Revelação, através da voz do grandioso Xande de Pilares. Assim como o cantor, o personagem desta semana é Rubro-negro. Mas não o carioca. Nosso negócio é Bahia e o escriba torce para o rubro-negro que é forjado no dendê. Matheus Caldas é um quase-jornalista que até tentou escapar da paixão pelo Vitória, mas, com um empurrãozinho de seu pai ali, um de seu primo acolá, acabou cedendo à pressão. Tentou escapar, não conseguiu. Prendeu o Vitória nas grades de seu coração, ao mesmo tempo que ficou livre nas grades do Manoel Barradas. Um amor paulatino, que foi tomando conta de mais um jovem soteropolitano e aos poucos foi dando tons de preto ao seu sangue naturalmente vermelho. O Vitória não se contentou em fazer parte da vida familiar de Matheus e se estendeu à vida profissional. Acompanhou o rapaz em seus tempos de redação e agora o ajudará na obtenção de seu diploma: seu trabalho de conclusão de curso será um documentário sobre o Rubro-negro.

Essa é a #VozDoTorcedor desta semana e você confere essa história logo abaixo. Escrita pelo próprio Matheus e fazendo valer a voz de quem torce.

Foto: Acervo Pessoal/Matheus Caldas

Minha relação com o Vitória tem influência direta de meu pai – como grande parte das pessoas que despertam a paixão pelo futebol. O longínquo ano de 2004 abrigou o dia em que percebi o inevitável: ali foi o marco. Não sei bem o dia, mas lembro que após relutar muitas vezes aceitei o convite para ir ao Barradão, aos 10 anos. Essa era uma luta de meu pai. Sempre ele me chamava para ver os jogos. Mas eu não entendia, não era ligado ao jogo e tampouco conhecia algum jogador. No entanto, era comum ver a cena do meu coroa descendo a ladeira da minha rua vestido de vermelho e preto para assistir algum jogo.

Não sei o motivo, mas naquele dia resolvi aceitar o convite. Queria experimentar. Coloquei uma chuteira, uma bermuda do Vitória e uma camisa qualquer. Naquele dia minha vida mudaria e eu não imaginava. O Vitória venceu o Grêmio por 2 a 0, com gols de Rafael Moura e Alex Santos – estaria mentindo se dissesse que me lembrava os nomes dos caras; tive que pesquisar no Google. O importante é que senti aquela energia. A sinergia de milhares de homens juntos gritando por um só motivo. Era algo novo. Era algo que eu gostei. A partida marcava mais uma possibilidade de o Vitória se manter na Série A. Contudo, ao final da competição, o Rubro-negro acabou rebaixado. Eu estava de férias da escola, na Ilha, e ouvi pelo rádio a derrota para a Ponte Preta, que selou o rebaixamento Vitória após 13 anos consecutivos na elite nacional. Mas aquilo não havia me chocado tanto. Eu ainda não entendia

O importante é que senti aquela energia. A sinergia de milhares de homens juntos gritando por um só motivo. Era algo novo. Era algo que eu gostei.

Em 2005, meu pai cumpriu uma promessa: não foi a nenhum jogo no Barradão. Com isso, minha aproximação com o Vitória foi postergada, apesar de eu ter comparecido a um triunfo do Leão por 2 a 0 sobre o Caxias, com meu primo. Ele, inclusive, foi o responsável por minha primeira camisa do Vitória – aquelas de camelô. Mas, ainda assim, fiquei um pouco longe e me lembro vagamente de alguns jogos, como uma goleada sofrida contra o União Barbarense – acho que 4 a 1 – e o rebaixamento para a Série C. Ali, definitivamente, começava minha história de amor incondicional por este clube. No pior momento de sua história. Eu tive tudo para acompanhar o finalzinho da geração de ouro, com campanhas memoráveis, como as de 1999 e 1997.

Mas, não. Foi a Série C quem aqueceu o meu sangue. Daí, eu comecei a acompanhar de verdade.

Ainda com a ausência de meu pai nos jogos, acompanhei pelo rádio a derrota para o Colo-Colo na final do Campeonato Baiano de 2006. Lembro da estreia na Série C, um empate de 1 a 1 contra o Pirambu-SE. Ouvi aquele jogo pelo rádio. Recordo de jogos sofridos contra Ipitanga (inclusive, um desses encontros marcou a demissão de Fito Neves, vice-campeão brasileiro em 1993), River-PI, Treze, etc. Sem meu pai, resolvi meter as caras e fui ao Barradão ver uma vitória por 2 a 0 sobre o Porto de Caruaru. Sofri com o péssimo início no octogonal final da competição. O primeiro turno deixou o Vitória praticamente eliminado. Mas uma arrancada histórica, que começou com um triunfo num Ba-Vi, em Feira de Santana, colocou o Vitória de volta à Série B. O retorno de Leandro Domingues também foi fundamental. Apesar de ter perdido o título para o Criciúma numa goleada ridícula, pude estar no jogo do acesso. Foi minha primeira grande emoção como torcedor, sobretudo por ter marcado o retorno de meu pai aos jogos. O Vitória venceu o Ferroviário por 4 a 0 e saiu do inferno, do calvário. Estávamos de volta à Série B. Meu sentimento só ia aumentando.

Já na Segundona, fui a alguns poucos jogos no estádio. Lembro de uma vitória por 1 a 0 sobre o Brasiliense, com um golaço do craque não concretizado Joãozinho, maestro do time naquela campanha. Pude ver uma goleada sobre a Ponte Preta também. Mas foi só. Ouvi o retorno à Série A pelo rádio. Meu pai foi ao jogo e me ligou muito emocionado. Estávamos de volta à elite. Eu, pela primeira vez, iria ver o Vitória bater nos gigantes.

Até que chegou 2008 e fui a praticamente todos os jogos. Não conseguia mais me separar do Barradão. Vi Ramon Menezes retornar após 14 anos, vi goleadas sobre Botafogo, Figueirense… estava lá pra ver as estreias de Marquinhos e Willians Santana no futebol. Depois daí, o casamento com o Estádio Manoel Barradas não acabou mais. Vi o primeiro título, em 2009, a primeira porrada no Bahia, as goleadas… Apesar de não ter visto a década de ouro de 1990, pude acompanhar a supremacia rubro-negra sobre o rival. Foram incontáveis emoções como visitante em Pituaçu e Fonte Nova, além de outros tantos títulos no Barradão. Sofri na minha primeira e única final nacional, em 2010, com a derrota frente ao Santos na Copa do Brasil. Chorei com o rebaixamento de 2014, chorei com os 8 segundos de descenso em 2017. Cantei os nomes de caras como Marinho, Escudero, Vanderson, Índio, Apodi, Viáfara, Ramon e tantos outros.

Matheus Caldas e Paulo Carneiro durante gravação do documentário. Foto: Acervo Pessoal/Matheus Caldas

Apaixonado por esse clube, em 2017 iniciei o projeto mais audacioso da minha vida: produzir um documentário sobre o Vitória. Foi aí que me aprofundei na história do clube, conheci ídolos incontáveis, de épocas anteriores a meu pai! Entrevistei caras que se tornaram lendas nas resenhas que ouvia dos torcedores mais velhos. “Nêgo: Um nome na história”. Esse é o título. Espero deixar minha marca na trajetória desse clube amado por muitos. O Vitória é um clube sofrido, mas é apaixonante demais!

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