#VozDoTorcedor: Victor Moreno e o espírito infantil do coração tricolor

Victor Moreno conta sobre como foi o seu dia naquele outubro de 2007, quando o Bahia se classificou para a última fase da Série C. Foto: Reprodução

O #VozDoTorcedor é uma seção do site Resenha na Rede onde torcedores pela Bahia e pelo mundo escrevem sobre seus clubes. Aqui o espaço é tão livre e diverso quanto a antiga geral. A ideia é que o torcedor seja nada além do que se é. Cornetas, análises, histórias e resenhas são muito bem vindas por aqui. Afinal de contas, o que é mais autêntico do que a voz de quem torce?

A nossa primeira história é contada por Victor Moreno. 23 anos, tricolor criado na cidade de Simões Filho. Ele descreve o que sentiu em sua casa -à época ele morava no bairro de Alto de Coutos, em Salvador- enquanto o narrador Raniere Alves, à época na Rádio Sociedade, descrevia o lance que acabou com o famoso gol de Charles aos 50 minutos.

“Lá vem o Bahia, quem sabe agora, galera?! O toque “praaaa” direita… é agora, bate no gol, bate no gol, bate no gol, meteu pra Morééééééééé… E DALE, DALE!!! GOOOOOOOOOOOOOL DO BAHIA. É DO BAHIA! É DO BAHIA! […] Que coisa linda! Que coisa maravilhosa! QUAAAAAAAAAAN-DO APIIIIIIIIIIII-TA O ÁRBITROOOOOO!! ACABA O JOGO AQUI NA FONTE NOVA […]” – transcrição da narração de Ranieri Alves em 2007.

Salvador, 07 de outubro de 2007

Há pouco menos de 11 anos atrás eu vivi um dos maiores alívios da minha vida. Era um domingo e com apenas 12 anos, eu ainda fazia ideia do que estava acontecendo. Hoje, no auge dos meus impressionantes 23 anos, a fase em que as músicas românticas fazem sentido, onde o sabor amargo da cerveja é melhor que qualquer bebida demasiada doce, onde os dias 01, 05 e 20 passam a serem dias importantes nos meses (e dia 08 também, Drª Fabiane, o mais importante inclusive), posso entender o que aconteceu naquela tarde nublada.

Aquele dia nasceu feio. Um silêncio ensurdecedor pairava em cada esquina do meu barulhento bairro: os bares não ouviam os sucessos da banda Asas Livres, muito menos as possantes canções da banda Pagodart. O famigerado golzinho não rolou pela manhã, as crianças não queriam jogar bola! O almoço saiu mais cedo que o normal… percebi que não era um domingo como os outros.

O cozinheiro do dia foi o meu pai, estranho, porque minha mãe era a responsável pela feijoada de domingo. Mas, ele queria almoçar e dormir. Ele queria esquecer aquele dia. Era uma tarde atípica e nosso Bahia poderia acabar naquela tarde. Ele não conseguia esconder o semblante preocupado. Ele, tão afeito a brincadeiras e gozações, não abriu as janelas de casa naquela tarde com vergonha da zoeira praticada pelo nosso vizinho rubro-negro, muito menos hasteou sua bandeira tricolor na grade da varanda. Entender os acontecimentos nesta tarde perpassa por entender o estado psicológico do meu pai e seus gostos.

Essa varanda -por sinal- assistiria ao meu momento de prazer, alívio e dor. Amante de tempero verde declarado e homem de inventividade notória, meu pai havia improvisado naquela varanda uma horta  com restos de armários e outros pedaços de madeira. Era uma espécie de mesa cercada onde ele, cheio de carinho e cuidado, cultivava seus temperos. A variedade era incrível! Tudo muito bem feito e organizado. A mini-horta do velho Brejal era escalada com coentro, hortelã-grosso, salsinha, e tudo que a cabeça de meu pai pudesse imaginar. Havia até um projeto que previa ampliação e mudança para um local maior. Tudo por conta de um ambicioso plantio de alface. Só que ao final daquela tarde o sonho cairia por terra. Literalmente.

Torcedor inveterado, acostumado ao clima do estádio e fiel até o osso, meu pai não quis ir à Fonte Nova naquela tarde. Era estranho, principalmente porque fomos juntos a praticamente todas as partidas daquela Série C (com exceção das duas primeiras onde os portões estavam fechados) e justo no pior momento meu pai estava abatido demais para ir a Fonte Nova. Eu confesso que fiquei chateado naquela tarde. Ora, lembremos que eu era uma criança que acreditava em milagres.

E precisávamos de um milagre naquela tarde.

Precisávamos que o Rio Branco-AC não vencesse o time reserva de um acomodado ABC-RN dentro da sua casa e precisávamos vencer o Fast-AM. Como um clube tão grande, Bi-campeão brasileiro e responsável por fazer meu pai chorar de alegria inúmeras vezes se colocou em uma situação tão difícil?

Era difícil explicar, muito mais para uma criança. Mas, uma criança sempre acreditará em milagres. E eu ?! Acreditava.

Por volta das 15h, bem alimentado, frustrado que não estava a caminho da Fonte Nova e sem desfilar o meu vistoso (sqn) futebol nas ruas do bairro, me preparei para o nosso ritual, que só acontecia quando o jogo era fora de casa. O ritual consistia em meu pai organizar o tira-gosto, comprar sua cerveja, sentar no sofá e escutar o jogo. Os tempos eram tão difíceis que nem na TV o jogo passava.

A tarde era tão atípica que sequer a cerveja meu pai quis comprar. Ele estava extremamente preocupado, abatido e cabisbaixo. Pelo menos estávamos bem alimentados. Nem mesmo nesse estado de tensão este homem erra uma feijoada.

Unidos na fé, no Bahia e no reggae. Victor e Brejal após mais uma feijoada. Foto: Arquivo pessoal/Victor Moreno

15h50min, já devidamente posicionados, aguardávamos o início do jogo. 16h00min, o jogo se inicia e um ‘’Bora Baêa Porra’’ xoxo sai da boca do meu velho. Eu permaneço em silêncio. O tempo vai passando e nada de sair gol do Bahia, muito menos na partida do Acre. Não me recordo o tempo, mas saiu um pênalti no Acre. Uma lágrima tentou escapar dos olhos do meu velho, eu resolvi levantar do sofá, pegar meu radinho de pilha e mudar de espaço. Eu queria chorar, mas não na frente dele. O milagre começou a acontecer: o batedor cobrou de maneira péssima e não anotou o tento no Acre. Aqui em Salvador definhávamos em sofrimento a cada chance perdida pelo Bahia. Ao mesmo tempo a gente tremia de preocupação a cada descida do Fast. Pelo rádio, as coisas se multiplicam em 10x porque o narrador coloca uma pressão absurda em cima do torcedor.

“Eu queria chorar, mas não na frente dele.”

É preciso ser meio criança para torcer pro Bahia. É preciso ser criativo, inventivo, sorridente e acreditar em milagres. Meu pai, aliviado com o pênalti desperdiçado pelos concorrentes à vaga no octogonal final da Série C, parecia ter despertado do seu estado adulto e passou a ser criança. Pediu-me para ir ao bar buscar uma cerveja pra ele. ‘’Só tomando uma agora pra ouvir até o fim’’. Resmunguei, mas fui. Ele abriu a cerveja e permaneceu intacto no seu sofá escutando o jogo. Eu, saí, subi as escadas, precisava chorar, eu acreditava no milagre, mas sofria com a realidade. Fui à varanda e escutei o segundo tempo ali, sozinho. A rua já não estava silenciosa. Os rubro-negros estavam felizes, bebendo, comemorando o possível término da história do seu rival grande. Mas, a frase proferida por um narrador ‘’Não brinque com o Bahia’’ passou a fazer sentido naquela tarde. O jogo já passava dos acréscimos e eu já não conseguia chorar mais, mas aquela coceirinha do Bahia ainda me incomodava. No Bahia, parceiro, só acaba quando termina.

É preciso ser meio criança para torcer pro Bahia. É preciso ser criativo, inventivo, sorridente e acreditar em milagres. Meu pai, aliviado com o pênalti desperdiçado pelos concorrentes à vaga no octogonal final da Série C, parecia ter despertado do seu estado adulto e passou a ser criança.

Um sábio homem disse: ‘’O Bahia nunca perdeu um jogo em sua história, ele apenas -às vezes- deixa de ganhar’’. Naquela tarde nós não deixaríamos de ganhar.

Quando Carlos Alberto recebeu o passe do setor de meio campo, ele foi avançando com suas passadas largas e elegantes até chegar à linha de fundo. No limiar do campo ele cruzou rasteiro para o nosso milagreiro Charles empurrar não apenas a bola para o gol. Não era apenas um objeto esférico encostando em uma rede. Aquela bola também foi o empurrão que faltava para me despir da vergonha e permitir, à lágrima, escorrer no meu rosto. Foi a primeira vez que chorei por futebol. E eu estava escondido, encolhido embaixo da mesa que abrigava a mini-horta do meu pai. Esquecendo onde estava, dei um pulo como quem volta à vida no último suspiro, choquei-me com a mesa e ela, tão frágil quanto eu, desmontou em cima de mim. Com um galo enorme, coberto de terra, aliviado, choroso e preocupado com a reação do meu velho, eu desci para abraçá-lo.

Foi em vão. Ele não estava mais na sala, já estava na rua tirando um sarro dos rubro-negros.

Varanda, na cidade de Simões Filho, onde ficava a horta do pai de Victor Moreno. Hoje é tudo história. O gol de Charles e a horta de seu Brejal Foto: Reprodução/Google Maps

Não era apenas um esférico encostando em uma rede. Aquela bola também foi o empurrão que faltava para me despir da vergonha e permitir, à lágrima, escorrer no meu rosto. Foi a primeira vez que chorei por futebol.

Anos depois e meu pai ainda não sabe o que houve com a horta dele, também pareceu não ligar. Ele estava satisfeito e aliviado com nosso Bahia. Uma grande parte das nossas vidas poderia ter acabado naquela tarde, mas o Bahia nunca vai desistir. O Bahia é uma coisa diferente: ele nos prepara para a vida. Quem não é Bahia jamais entenderá, mas é preciso ter certas características para torcer pelo Bahia e uma delas é a de NUNCA desistir. Torcer pelo Bahia -hoje- se tornou muito mais fácil e menos doloroso, mas é preciso revisitar o passado para relembrarmos onde estávamos naquela tarde, o que poderia ter acontecido e lembrarmos que SOMOS A TURMA TRICOLOR.

E saibam que este espírito infantil nunca sairá do coração de um tricolor, pois, com a gente, parceiro, só acaba quando termina.

Quem não é Bahia jamais entenderá, mas é preciso ter certas características para torcer pelo Bahia e uma delas é a de NUNCA desistir.

Victor e seu pai na Fonte Nova reformada. Foto: Arquivo pessoal/Victor Moreno

BBMP.

Victor Moreno Pereira Oliveira
Sócio nº 132400

Vinicius Nascimento
Sobre Vinicius Nascimento 237 Artigos
Estudante de Comunicação na UFBA, produtor do programa Os Donos da Bola na TV Band e faz de tudo no Resenha na Rede. Oficialmente, editor e repórter do site. Tricolor, viciado em estádio e feliz pela própria natureza.

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