Entrevista: Uri Valadão Campeão Mundial Bodyboarding Word Champion

Foto: Reprodução

O Bodyboarder Uri Valadão recebeu a equipe @Resenhanarede no quintal de casa, em um papo bem descontraído abriu o jogo sobre seus projetos e feitos na carreira. Confira essa resenha!

Foto: Resenha na Rede

Resenha na rede: Fale um pouco sobre seu início no esporte, como surgiu o bodyboarding em sua vida?

Uri Valadão: Bom, o bodyboarding surgiu pra mim com muita naturalidade, meu irmão mais velho, Khael Valadão, já pegava umas ondas de bodyboard, então eu sempre frequentava praia. Aquela brincadeira de criança, a gente ia pra praia ficava pegando aquelas “espuminhas”, depois a coisa foi ficando séria e seguiu como uma bola de neve! Comecei a competir, a adquirir bons resultados e as coisas foram se tornando mais sérias e mais profissionais na minha vida.

RR: Porque continuou no bodyboarding, já que a maioria parte pro surf de prancha, de quilha?

Uri Valadão: Acho que vai muito pela questão do gosto e prazer de cada um né? Nunca tive a vontade ou necessidade de pegar uma onda de surf, porque o que eu fazia no bodyboarding me satisfazia, achava aquilo o máximo! Buscava desafios, e no bodyboarding você pode ter a mesma satisfação de quem surfa em uma prancha, porém deitado. São maneiras diferentes, não que um seja mais fácil que o outro, que seja mais importante que o outro, são esportes diferentes, um surfa em pé o outro deitado! São manobras totalmente diferentes, e o surf por ser em pé tem manobras próprias e o bodyboarding sempre foi meu grande vício, apesar de que, já brinquei com o surf em pé, por um hobby mesmo não era nada sério.

RR: Quando deixou de ser um hobby e acabou virando profissional pra você?

Foto: Reprodução

Uri Valadão: Não deixou de ser um hobby, mas é um trabalho que eu me divirto muito, eu sou extremamente feliz no que eu faço, mas passou mesmo a ser profissional a partir do momento que eu comecei a competir e alcançar voos maiores, alcançar resultados maiores e conseguir conquistar sonhos que todo garoto quando começa imagina, ser campeão mundial. Aí, quando vi que tinha potencial, a coisa começou a ficar profissional mesmo, comecei a me dedicar totalmente, era o bodyboarding em primeiro lugar, mais que meus estudos, família, namorada, mais que tudo.

RR: Por volta de que ano aconteceu essa transição?

Uri Valadão: Foi logo cedo. Comecei a surfar em 1997 e em 98/99 já competia e então em 2000 a coisa começou a ficar seria mesmo. 2001 fui campeão brasileiro amador, aí eu já estava com o foco total no bodyboarding, e foi a partir daí que a coisa começou a ficar mais séria, nos anos 2000.

RR: Qual a maior dificuldade encontrada nessa transição?

Uri Valadão: Patrocínio sempre foi uma grande dificuldade. Porque é um esporte que não tem tanta visibilidade como outros, tive que matar um leão por dia, mas tive o privilégio que de muitos campeonatos que participava, acabava ganhando, então isso me dava prêmios, e quando eu era amador ganhava diversos prêmios, pranchas, etc. E com isso, vendia as pranchas, fazia dinheiro e viajava, assim, acabei ficando independente e não precisando tanto do apoio dos meus pais. Outro grande desafio era viajar sozinho, pegar ondas grandes, isso também era um grande desafio.

RR: Sobre o desenvolvimento do bodyboarding, o que você acha que falta pra galera começar a acreditar mesmo no esporte, como o surf vem crescendo o skate vem crescendo e o bodyboard seguir nesse mesmo caminho?

Uri Valadão: O bodyboarding tem tanto potencial quanto esses outros esportes que você citou, mas pouca gente sabe que é um esporte muito novo, se eu não me engano tem apenas 42 anos, o surf deve ter uns 50 anos só de competição mundial, o surf tá muito mais na frente. Mesmo assim o bodyboarding já chegou a virar febre aqui no Brasil, na época de Glenda Kozlowsky, Guilherme, por incrível que pareça era mais forte que o surf, foi um “boom” que o bodyboard deu, os atletas acabaram estragando esse “boom” do esporte, resolveram boicotar, achando que os organizadores estavam ganhando muito dinheiro, então acabou que sem querer acabaram boicotando o próprio esporte. Mas o grande ponto que você falou e que realmente falta é alguém que acredite no esporte, alguém com muito dinheiro, com muito investimento, um empresário sinistro mesmo que acredite no esporte.

RR: Qual campeonato mais te marcou e porque?

Uri Valadão: O que mais me marcou sem dúvida foi o que eu fui Campeão Mundial nas Ilhas Canárias, é um lugar extraordinário, um lugar que gosto pra caramba e foi o lugar que eu consegui a melhor vitória, a maior conquista da minha vida no bodyboarding, então lá foi o lugar e o campeonato que mais me marcou.

RR: Hoje não vemos tantos campeonatos de bodyboarding como tínhamos antes em Salvador. A que você atribui isso?

Uri Valadão: Atribuo isso exatamente a oportunidade, há cinco anos nós tínhamos Marcio Torres, que era meu professor, além de  meu treinador e também fazia parte da Federação, organizando eventos. Então, Márcio levou o bodyboarding por uns 10 anos nas costas e na minha opinião ele foi o cara que mais conseguiu desenvolver o esporte aqui na Bahia, então a gente tinha alguém que acreditava, que amava e fazia o esporte ir pra frente, hoje tem muita gente que ama o esporte, que rala pra caramba, mas ainda não tem uma pessoa que foque só nisso.

RR: Hoje vemos o skate e o surf entrando na próxima Olimpíada, o que falta pro bodyboarding alcançar esse patamar e quem ganharia mais em uma eventual participação, o bodyboarding ou as Olímpiadas?

Uri Valadão: Sem dúvida o bodyboarding. Claro que pra olimpíada teria mais um esporte extraordinário, mas estamos em uma crescente ainda, ainda é um esporte amador com pouca visibilidade, pro bodyboarding seria fantástico. Estamos nos esforçando pra pegar uma carona do surf nesse bonde aí né? Rolam alguns boatos que o bodyboarding de repente pode ter uma chance, tomara que seja verdade, para mim seria um sonho participar de uma Olimpíada. Temos muito potencial, o Brasil tem o maior número de títulos no bodyboarding, é o esporte que temos mais títulos mundiais se não to enganado, por volta de 20 títulos mundiais juntando feminino e masculino.

RR: na sua opinião falta um pouco de ajuda da mídia na divulgação do esporte?

Uri Valadão:  Em alguns casos poderiam sim da um apoio maior, pois vemos em alguns programas da tv, que teoricamente são programas de esportes, mas a realidade que a gente vê só futebol. Sou apaixonado por esporte, qualquer que seja o esporte, inclusive o futebol, mas as vezes eu quero ver uma natação, o surf na TV, tênis, skate, várias outras modalidades e a gente passa 1 hora na frente da televisão só vendo futebol, por esse lado exageram. Contudo, não posso reclamar muito da mídia, ela sempre me apoiou muito aqui em Salvador, a galera cobriu muito o que fazia, principalmente no auge quando fui Campeão Mundial. Não é só questão da mídia, muitas vezes eles querem pautas diferentes mas muitas vezes não tem acesso a novas informações.

RR: Fale um pouco dos seus patrocinadores, aqueles que te acompanham nesta luta diária?

Uri Valadão: Não posso deixar de agradecer a Gtboards, uma marca de bodyboarding, me fornece todo o material de prancha e também é o patrocinador do meu grande ídolo Guilherme Tamagger, me acolheu desde o início da minha carreira. Tem a Kapaloa com um dos meus patrocínios principais, uma das maiores empresas de nadadeiras do mundo, produzida no Brasil, um “pé de pato” mundialmente conhecido, patrocina grandes nomes do circuito mundial, patrocina também a Neimara Carvalho, pentacampeã mundial. Tem a Avstorie que é minha loja, mas divulgo como patrocínio, a academia Henck que me dá um apoio, a Itsblue é uma empresa de marketing esportivo que me assessora também. Eu to bem assessorado, e agradeço muito aos patrocinadores, sem eles não taria aí competindo nessa jornada.

Foto: Reprodução

RR: Fale um pouco sobre a escolinha Uri Valadão de bodyboarding.

Uri Valadão: a escola Uri Valadão tem pouco tempo, 1 ano e 3 meses. A escolinha partiu de um princípio que eu vivi por 10 anos, na escola Gêneses de bodyboarding, que tinha como meu mentor Márcio Torres, que de professor passou a ser meu técnico, foi a pessoa responsável por toda minha trajetória vitoriosa. Márcio encerrou um ciclo na escola, que durou 15 anos,  sempre gostei de trabalhar em grupo, me ajudava a desenvolver o surf e tive a vontade de resgatar um projeto parecido, tenho pessoas extraordinárias comigo neste projeto, Vinicius, Gidean, grandes amigos da escola Gêneses, que se tornaram profissionais e tocam esse barco comigo.

RR: Quais são os valores e objetivos que são passados pra molecada que chega a escolinha?

Uri Valadão: O principal valor do bodyboarding é conhecer o esporte, a sensação de surfar, está em contato com a natureza, é um esporte onde o ambiente muda constantemente e isso já o torna bem dinâmico, como por exemplo, no futebol, se você chegar para treinar o campo estará do mesmo jeito que no dia anterior, no bodyboarding a onda vai está de um jeito, a corrente de outro e ai você começa a aprender sobre o vento, as ondas, direção, corrente, geografia, tanta informação bacana, a questão do prazer que o esporte traz. É isso que a gente passa pra galera, antes de competição, antes de qualquer coisa, pois houve uma época em que o surf era considerado coisa de “vagabundo” e hoje as pessoas estão mudando essa mentalidade, na minha escola tem Advogado, Médico, pessoas que passam o dia no hospital ou escritório e agora estão lá pegando onda, mudando o estilo de vida, a rotina em função do bodyboarding, olha os benefícios adquiridos em uma simples experiência, é isso que a gente quer passar, essa qualidade de vida, fazer deu trabalho e ter algo diferente em paralelo.

RR: Vemos uma molecada boa ai pegando onda de bodyboard na orla de Salvador. Qual o conselho que você dá pra galera que está chegando?

Uri Valadão: Primeiro, se eles realmente têm um sonho de se tornarem campeões e tudo mais, precisam colocar os pés no chão e entender a situação atual do esporte. Na minha época o esporte ainda passava por um bom momento onde eu conseguia ganhar uma grana e me sustentar só competindo, tinha circuito brasileiro que hoje não tem mais, por exemplo. Ganhando muitos campeonatos e chegando nas finais dava pra conseguir aquela premiação e a visibilidade, hoje o cenário é diferente, está bem difícil pra quem tá começando, pois do campeonato estadual eles já partem para o mundial, porque é o que temos no momento. Conseguimos resgatar a Federação Brasileira que estava parada e essa é uma boa notícia, com uma boa comissão trabalhando na Confederação Brasileira de Bodyboarding.

RR: Sobre o desenvolvimento do esporte, quais as mudanças positivas e negativas do tempo em que você começou até hoje?

Uri Valadão: O que mudou mais foi a questão dos campeonatos, quando eu comecei existia um circuito melhor estruturado, tanto o Baiano quanto o Brasileiro, me sinto privilegiado por essa época, ate chegar no título Mundial eu subi uma escadinha, campeão baiano, depois campeão baiano profissional, campeão brasileiro amador, campeão brasileiro profissional, depois campeão latino-americano, depois campeão mundial. Tive uma oportunidade perfeita pelo momento do esporte, hoje perdeu uma boa estrutura e mídia, o que trazia posição, patrocinadores, precisamos resgatar os campeonatos, resgatar uma base sólida, pra fazer o esporte aparecer, o fazer conhecido.

RR: Pra finalizar me fale sobre seus planos profissionais dentro do bodyboarding.

Foto: Reprodução

Uri Valadão: O plano atual é colher os frutos daquilo que eu tenho plantado, tenho uma escola de bodyboarding e em menos de um ano eu consegui trazer para o esporte mais de 50 participantes que nunca haviam escutado falar do esporte, as pessoas não tem noção do quanto essa escolinha é importante, esse aumento reflete no mercado do esporte que reflete nos patrocinadores e investimento, é um primeiro passo quem em 1 ano e 3 três meses deu um bom resultado, minha meta é continuar competindo e com a escola em paralelo, tenho uma loja com todos os produtos específicos para bodyboarding que vêm trazendo resultados. Também quero ajudar a estrutura, a organização do esporte, tenho tentado patrocinar alguns atletas, o que ajuda bastante, etapas do Baiano eu colo com patrocínio, tento ajudar da forma que posso, penso em algumas coisas que nem sempre posso executar mas quero continuar por um bom tempo nesse caminho.

Osvaldo Barreto
Sobre Osvaldo Barreto 1276 Artigos
Editor, colunista e repórter. Produtor do programa Os Donos da Bola (TV Band). Advogado.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*