Roger Machado se reinventa taticamente e faz o Bahia subir o nível de atuação

Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia

@Resenhanarede

Mesmo com a boa fase do Bahia, ainda é comum ver e ouvir muitas pessoas, os famosos corneiteiros de plantão, reclamando do esquema montado por Roger Machado. Já escutei um pouco de tudo: “Retranqueiro!”, “tá dando certo, mas a sorte vai acabar”, “tá me lembrando aquele meio com Fahel, Diones e Hélder”, “tá bom, mas tem que botar o time pra cima”, entre tantos outros comentários. Alguns até que têm certo fundamento, outros, fala sério, irmão! Fahel, Diones e Hélder? Tá de brincadeira? Como diria o mito Faustão: “Ô lôco, meu”.

Uma coisa é certa: O futebol mudou e o Bahia, finalmente, começou a entender isso e a acompanhar essa chuva de atualizações táticas, de treinamento, de comunicação. E a contratação de Roger Machado passa por essa adaptação do Tricolor ao novo caminho que o futebol tem seguido. Pode perguntar: “Mas como assim, Rafael? Você tá goiabão, né? Roger chega, bota o time pra cima, leva porrada. Aí retranca o time, começa a ganhar e você acha bom? Ele é medroso! Só tá pensando no emprego dele”. Calma, meus amigos.

Realmente, a fama deixada por Roger, nos times que passou – Grêmio, Palmeiras e Atlético-MG –, era de ter a posse de bola, de controlar o jogo no ataque, de muita infiltração. Sim, é isso mesmo. Mas pare para pensar nos elencos desses times. Traduzinho, o Bahia tem um time bem armado, mas limitado tecnicamente, além de não ter uma quantidade suficiente de atletas com as qualidades e carcterísticas necessárias para fazer o que gosta. Mas tudo tem um lado bom. Ele entendeu o elenco que tem em mãos, organizou o time de uma forma na qual ele consegue tirar o melhor dos atletas que ele julga importantes, decisivos e táticos.

O Bahia fazia muito gol e tomava muito gol. Além disso, não ganhava fora de casa. Mas para um time que deseja uma boa campanha na Copa do Brasil – sonha até com uma possível final – e que tem como meta acabar na primeira parte da tabela do Campeonato Brasileiro e, quem sabe, beliscar uma pré-Libertadores, vencer fora é fundamental. Ele entendeu que não poderia se expor tanto, como vinha acontecendo, já que não tinha sustentação defensiva para isso. São três volantes? Não. No futebol de hoje, com as funções exercidas por Élton e Douglas Augusto, assim como Eric Ramires, esses jogadores são os chamados “meio-campistas”. E qual a diferença? Basicamente, além de terem poder de marcação, eles têm capacidade para organizar o time, iniciar jogadas ofensivas e são fundamentais para subir a linha de marcação, na hora de pressionar o adversário.

Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia

Longe de mim querer comparar as qualidades técnicas, mas bons exemplos de jogadores que fazem isso, são: Modric e Kross (ambos do Real Madrid), Rakitić (Barcelona), Thiago Alcântara (Bayern de Munique), Gündoğan (Manchester City), Pjanić e Khedira (Juventus), Keïta e Milner (Liverpool) e De Jong (Ajax), isso só para citar alguns nomes conhecidos. Obviamente, alguns deles finalizam melhor de média de distância, outros têm facilidade na infiltração nas defesas adversárias, outros organizam o jogo e por aí vai. Mas todos têm participação fundamental no funcionamento do time, tanto na parte defensiva, quanto na parte ofensiva. Esse tipo de esquema, com esses tipos de jogadores, faz com que seja necessário um elenco comprometido, entrosado taticamente. É a concretização do conceito de “jogo coletivo”.

Quem também acaba sendo fundamental nesse esquema são os pontas, atualmente chamados de extremos. No caso do Bahia, Athur Victor e Élber. Além de serem os maiores responsáveis pelas puxadas de contra-ataque, principalmente pela velocidade que possuem, também são responsáveis por recompor a linha de cinco defensiva montada no meio de campo do Bahia, quando atacado. Eles, na prática, impedem a subida dos laterais adversários, fazem com que o rivais tentem jogar pelo meio e lá encontram três grandes marcadores. Ou seja, Roger Machado consegue matar o setor de criação dos rivais e facilitar a vida dos lentos Lucas Fonseca e Ernando, pois a bola chega quebrada e impede o um contra um.

Esse time ainda precisa de reforços. Acredito que um zagueiro rápido, até porque Lucas, Ernando, Xandão e Jackson são lentos e têm pouco poder de reação no um contra um. Mais um jogador de velocidade no ataque, já que só conta com Élber e Arthur Victor. Pode perguntar: “E Arthur Caíke e Rogério?”. Caíke funciona melhor como falso 9, jogando por dentro, além de não ser um velocista. Enquanto Rogério mostrou ter dificuldade para ficar 100% fisicamente. E traria um camisa 8 e não um camisa 10. O motivo é simples. Com o esquema que está dando certo, o Bahia precisa de um meio-campista com poder de marcação, como os que estão aí, mas que também tenha um pouco mais de visão de jogo, se possível, que goste de chutar. O Bahia poderia ter conseguido vencer com mais tranquildade alguns jogos, como os contra o São Paulo, por exemplo, quando a bola ficou muitas vezes nos pés de Elton e ele não soube o que fazer.

Mas o certo é que Roger Machado merece os parabéns pelo bom trabalho e por não se engessar taticamente, por ter a mente aberta para novas possibilidades e por ter coragem de testar, sem abrir mão do resultado.

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