Resenha no Tatame: A arte de formar cidadãos no tatame com o professor Renê Jadan (Nordeste Jiu-jitsu)

Foto: Arquivo Pessoal.
Dizem por aí que as crianças são o futuro de um país, muitas delas nascem com seus sonhos traçados, outras se espelham em sonhos alheios e se apaixonam. No esporte as crianças são consideradas o legado, de uma geração, de um professor, de uma tradição, o jiu-jitsu respeita muito cada vestígio de tradição e torna essas crianças muito mais do que atletas, as tornam cidadãs.
Nem sempre essa jornada é fácil, ser professor é se tornar responsável pelo crescimento de muitas pessoas e acumular junto à família, bons resultados. Renê Jadan foi pego de surpresa quanto a essa mudança, o Resenha Na Rede deu um pulo na NordesteJJ, que fica localizada no bairro da Boca do Rio e conheceu toda a garotada e como o professor surgiu e segue guiando os jovens moradores da comunidade.
Foto: Arquivo Pessoal.
Após sofrer uma lesão e ficar impossibilitado de treinar ou competir, Renê encontrou uma nova vocação e ao mesmo tempo uma forma de ficar atento aos treinos. 
“Na verdade foi meio que jogado nos meus peitos, não foi algo do tipo, ‘vou me preparar pra dar aula’. Eu sofri uma lesão no ombro, fiquei muito tempo sem treinar, não podia fazer exercício e foi a forma que encontrei de me reciclar que foi dando aula para os meninos”, revela Renê.
E a partir daí, o projeto boa luta ganhou mais um reforço, as crianças da comunidade mal sabiam o que era o Jiu-jitsu mas tinham vontade, foi isso que motivou todos a continuar.

“Como eram crianças e muitos eram leigos no Jiu- Jitsu, não sabiam nada a dois ou três anos atrás. Então comecei a passar os movimentos básicos: raspagem de alavanca, tesoura, armlock e eu sempre falando para eles: eu quero que vocês treinem a ponto de um dia serem meu treino- , falava isso muito. Foi o que aconteceu, foram ficando duros, fui passando mais movimentos avançados  e se tornaram o que são hoje”, diz contente.

As crianças estão em fase de transformação e crescimento e o professor as vezes tem que lidar com essas questões em cima do tatame, o seu posicionamento é essencial pra fazer a diferença na cabeça de cada um deles, os alunos acabam sendo influenciados por quem os ensina e se baseando nisso para se comportar dentro e fora da academia.
Foto: Osvaldo Barreto/Resenha na Rede.
“Essa parte não está sendo muito difícil para mim. Até porque eu tenho um convívio diário com eles, tem treino duas vezes no dia, praticamente a semana toda a gente está junto, então consigo ter um controle de como eles vão agir, me perguntam alguma coisa, fora os pais que estão sempre aqui diariamente também e tem uma parceria que a gente faz também com a Faculdade Ruy Barbosa, que tem um apoio psicológico, que é voltado totalmente para a psicologia desportiva, isso me ajuda bastante.
Para isso, é necessário ter muita paciência e esperar que seus alunos façam aquilo que aprenderam e comemorar os resultados, o que para ele não tem sido um problema, os resultados estão falando por si só .
“Eu me sinto orgulhoso. Como estou tentando voltar a competir, eu tento hoje me espelhar neles. As vezes me vejo puxando um treino pra eles que se fosse pra mim eu estaria cheio de ódio. Mas eu fico muito orgulhoso de saber que eles se espelham muito em mim, mas na verdade eles não tem essa noção que eu me espelho de volta”.
Com o apoio psicológico para essas crianças, fica mais fácil passar o que o esporte tem de melhor e deixar que eles mesmo mostrem o que aprenderam não só com a luta, mas no dia a dia.
“Como meu tio já tinha falado (Yuri Carlton), o nosso diferencial é a força de vontade. Esses meninos aqui já têm tudo certo para dar errado por conta da comunidade que a gente vive, o grande assédio do tráfico aqui na região. Então o Jiu-Jitsu ajuda muito a moldar o caráter deles. Então, todo dia tem treino. Somente dias de terça e  quinta tem uma turma voltada para crianças de 5 a 8 anos que é o treino lúdico da gente, das 19h às 20h”.
Para as competições o apoio vem de cada um, a motivação e a força de vontade é o começo para trazer as medalhas, nem sempre custear isso é fácil mas algumas pessoas ainda entendem que valorizar o esporte é um dos pilares para manter a sociedade evoluindo.
“Agora, por exemplo, fomos para o Rio de Janeiro com ajuda total do Vereador Filipe Lucas. Ele conseguiu o ônibus semi leito, a hospedagem, ele praticamente patrocinou o campeonato, só não a inscrição que cada um conseguiu por si. Ele é o nosso padrinho”, conta Renê.
Alguns alunos já estão começando a de destacar dentre os outros, pelas conquistas e por manter certo padrão, isso faz com a tática mude,em prol da melhora desse aluno.
“Larissa (Alien) por exemplo, que está liderando na disputa do ranking, a gente já começa a puxar um treino diferenciado pra ela, vê quem são as adversarias na categoria, no absoluto e molda o jogo de acordo com cada atleta e não o campeonato.
MENINAS NO TATAME
A procura do publico feminino tem crescido bastante nas artes marciais e o Jiu-jitsu é um dos esportes mais procurado por elas. Os pais estão presentes nessa escolha e a reação deles em relação a escolha das filhas pra o esporte não tem sido negativa.
“Aqui não vejo tanta dificuldade de os pais aceitarem as meninas no Jiu-Jitsu. Por sinal, o time feminino de competição aqui está mais forte do que o time masculino. Tem Larissa, Rebeca, Mina, Joana (Boleira), entre outras, em si, as meninas competindo estão com o rendimento melhor do que os meninos. Não sei o que atrai, acho que é o fascínio mesmo pelo Jiu-Jitsu que está crescendo e trazendo as meninas”, especula o professor.
Larissa Alien, de 20 anos e faixa branca, lidera atualmente o ranking da categoria, tem se destacado nas competições e como costuma dizer “passa o carro” em suas adversárias colocando em pratica a vontade que aprendeu nas aulas.
“Eu me sinto uma vencedora, não só por eu estar aqui, mas por ver as outras meninas também. Porque é muito preconceito, e isso de os homens serem sempre mais fortes, sempre melhores e na verdade não é nada disso”.
AS CRIANÇAS
Em visita a academia a equipe do Resenha na Rede não poderia deixar de conhecer mais um pouco dos pupilos de Renê e o primeiro a falar foi Guilherme, que revelou que não gostava de nenhum esporte, mas a mãe incentivou o garoto a entrar no Jiu-jitsu. “No início foi muito chato, mas depois que fui me desenvolvendo foi muito melhor”, confidencia o garoto.
Foto: Osvaldo Barreto/Resenha na Rede.
A garotada tem bons resultados nos campeonatos que disputam. Exemplo é Jeron, que foi para o campeonato Sul-americano e contou um pouco da experiência.
“As lutas foram acirradas, foi muito bom, mas só que eu perdi por dois pontos. Me preparei para o campeonato treinando todo dia. Segunda, o treino mais leve, terça, físico, quarta, o treino de sair “torto”, quinta, um treino geral e sexta, maioria de rola. Eu me senti vitorioso por chegar no campeonato mais uma vez.
Para a NordesteJJ, Yuri Carlton, Renê Jadan, alunos e todos aqueles que de alguma forma acreditam que esse esporte pode salvar muitas crianças, não foi fácil fazer o projeto crescer. Hoje os meninos lideram entre os melhores da Bahia e mostram que diferente de muitos não querem ser apenas estatísticas e sim plano de ação. Com a vontade, que é o que move o projeto Boa Luta, esses jovens vão construindo um espaço no esporte, na sociedade e tirando proveito de tudo com muita dedicação.
Carol Ribeiro
Sobre Carol Ribeiro 132 Artigos
Estudante de Jornalismo (Estácio). Repórter dos esportes.

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