#VozDoTorcedor: O encontro do futuro com o passado nos gols de Ruan Potó

Foto: Ec. Vitória

O relógio arranhava os 45 minutos do segundo tempo quando menino Ruan Potó partiu em direção a bola que sobrou na entrada da área. Conseguiu evitar o companheiro já banguela e azarado, Neto Baiano, e depois ao chutar ultrapassou o goleiro e a zica para estufar as redes e virar a partida contra o Vila Nova.Talvez muitos de vocês não tenham noção da epopeia ali envolvida, mas o menino da base estreou no profissional com dois gols que ficam para a história. Já se passavam 13 jogos que o times não vencia, uma grave crise política parecia nos caminhar para um fosso sem fim.

Porém, o principal é que entramos no Barradão cientes que vai deixar de ser o nosso mando de campo por três anos, e, se voltarmos, é possível que ele já na será mais o mesm. A nossa casa, onde podemos correr na arquibancada na hora do gol, abraçar um desconhecido sem um cadeira para atrapalhar, estar ao lado de alguém com ingresso mais barato, ou que atravessou os degraus desalinhados para tomar um cerveja no intervalo, como fez o amigo Tharsis da família Vitória Afro.

Também não será o Barradão onde a chuva gelada é uma constante, e só bem vinda quando ganhamos uma partida como esta no dia 04 de maio de 2019. Quem sabe, os engarrafamentos, a filas e as escadas para lá de inclinadas também deixarão de ser uma realidade, depois de três anos no mundo artificial das arenas, onde os corpos e corações são setorizados.

Foto: EC Vitória

Neste dia histórico coube ao menino Ruan no primeiro gol entortar um zagueiro como há tempo não se via, pois nosso ataque acostumou-se a enfrentar adversários como se fosse uma batalha de UFC. Ainda assim, a corneta potencializada na nossa baixa estima continuava a maltratar os jovens da base. O goleiro Caíque, o CatBlack que mistura a envergadura de Dida e a loucura de Fábio Costa, parece ter envelhecido dez anos, mas era criticado quando acertava. Já Ruan sentia as dores da estreia no “baba de homem”, e era sentenciado: “O menino mal começou e já tá caindo no chão”.

O destrato à base é destas psicologias coloniais a serem superadas na nação rubro-negra, e parece que está no dia a dia dos jogadores no Centro de Treinamento. Veja, Lucas Ribeiro, o melhor e mais elegante zagueiro que vi com nossa camisa, desde que minha memória acompanha tudo em 1992, tinha o apelido de Barata, um inseto peçonhento que dispensa maiores apresentações do seu teor pejorativo.

Tempos atrás Marcos André, conhecido como Vampeta, ganhou o apelido que mistura vampiro com capeta porque não tinha os dentes da frente, e nem por isso deixou de ser um dos maiores nomes que vestiu este manto até ser campeão do mundo com a seleção.

Já Ruan Levine, é chamado de Potó, um inseto capaz de deixar queimaduras, e manchas no corpo. Entendo o seu pai, a primeira coisa que precisamos afirmar é nosso nome e sobrenome, mas Potó é um besouro que solta uma toxina apenas quando o perturbam, vive nas matas, como na sua cidade em São Sebastião do Passé, não tem nada de feio ou sujo. Pode assumir ele de boa, porque ele já pegou na torcida, é nosso símbolo de alma ferida que revida para não morrer. Aliás, o potó mais comum é vermelho e preto.

O drible no primeiro gol, e a fome com quem avançou para marcar no final, quando a chuva deixou de ser trauma e virou redenção, me fez lembrar de Nadson, o Nadgol. Revelação do Brasileiro de 2003, era atacante titular da seleção pré-olímpica quando foi vendido pra Coréia. Sua carreira promissora declinou ali, foi tirado da seleção, que por sua vez, sem ele nem se classificou para Olimpíada de 2004.

Potó me fez lembrar de um passado que o futuro tinha toda a pinta de glorioso se nossos craques não fossem vendidos abaixo do preço, e sem nos trazer conquistas – como poderia ser a nossa Copa do Brasil com Nadson em 2004? Tempo que o Barradão vivia vazio, principalmente no meio do campeonato, com ingressos caros e falta de estímulo ao sócio torcedor, que poderia insuflar o time e evitar o rebaixamento da Série A nesse mesmo ano.

Pois bem, tantas dores e frustrações pareciam pousar na memória da arquibancada neste sábado chuvoso. Foi quando Ruan Potó estufou as redes e correu para comemorar com a arquibancada onde seus parentes o assistiam. A chuva virou festa e o velho Barradão foi celebrado e saudado. Um santuário que esperasse ser preservado como os nossos meninos da base que preparam um futuro almejado.

Texto de Pedro A. Caribé

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