#NinguémPediuSuaOpinião: Caíque é o menor dos problemas do Vitória

Foto: Mauricia da Matta/EC Vitória

Que o Vitória enfrenta uma crise dentro e fora de campo não é novidade para ninguém. Além dos resultados ruins que o time segue distribuindo para seu torcedor, uma nova crise política é iminente. Na verdade, o problema institucional do Vitória não é novidade que veio junto com Ricardo David, o primeiro presidente eleito pelos sócios do clube.Vamos e convenhamos: desde a gestão de Alexi Portela, nenhum presidente eleito conseguiu terminar sua gestão. Os únicos que completaram ciclo foram presidentes em gestões no formato de “tapão”: Raimundo Vianna, que foi eleito após a renúncia de Carlos Falcão; e Agenor Gordilho, que assumiu após toda a situação envolvendo Ivã de Almeida. De 2013 pra cá, o Vitória teve nada menos do que cinco presidente. A média é de um por ano. Isso simplesmente não existe. Ou pelo menos não deveria.

O papo é chato e já virou jargão: das mesas de bar às mesas redondas todo o mundo concorda que o futebol, assim como a vida, para ter sucesso demanda planejamento. Mas como é que se planeja em um meio turbulento desse tipo? Nem bem se assume, renuncia. Não dá para criar uma estrutura sólida em um ambiente com essas condições. É impossível traçar um paralelo com o Bahia, que se não está às mil maravilhas, ao menos vem tomando uma forma no decorrer dos anos. E isso é refletido em padrões de identidade que chegam ao campo: o Bahia tem um padrão de contratações. Há um perfil definido para isso. Dando certo ou não, o Bahia tem uma proposta de jogo muito bem definida e que já se repete há anos. Pressão alta, transição rápida, volantes que flutuam, extremos velozes… com maior ou menor qualidade na peça, há, ao menos, uma repetição de proposta importante para a construção do DNA da equipe. Essas coisas não têm como existir no meio desse turbilhão político que assola o Vitória. Ainda mais porque os perfis de dirigentes que passaram pela Toca do Leão nos últimos 5 anos são completamente distintos. Ou alguém acredita que Carlos Falcão, Raimundo Viana, Ivã de Almeida, Agenor Gordilho e Ricardo David possuem intersecções contundentes em suas linhas de pensamento e gestão?

Foto: Reprodução/ASCOM do Vitória

Ah, sim, claro. Eu falei de Caíque no título do texto. Antes de qualquer coisa eu preciso deixar claro que não acho que o rapaz seja essa ruína que tem sido falado por torcedores, palpiteiros e alguns coleguinhas de imprensa. Assim como, também, não o achava aquela maravilha que se falou após as finais do Campeonato Baiano de 2016, quando ele fechou o gol, foi campeão e de quebra tirou onda com Hernane. Tudo isso em sua estreia como profissional, quando tinha 17 ou 18 anos.

Com 21 anos, Caíque está, ainda, longe de alcançar sua maturidade como goleiro profissional. E as coisas serão ainda mais complicadas no meio desse turbilhão de insegurança que ele está submerso. O “novo Dida” não tem nada de Dida, além da altura e o clube que o revelou. Mas isso não quer dizer que Caíque não possa ser uma boa peça para o Vitória. Não ser o novo Dida não tem nada a ver com não ser um bom goleiro. E, de verdade, acho que Caíque pode ser muito mais do que tem mostrado. Só não acredito que ele pode ser melhor que Jean, por exemplo, que é um goleiro que me agrada muito mais pelas características saindo com a bola e pela personalidade.

Caíque já foi xodó da torcida. Logo quando estreou no profissional foi um dos responsáveis pelo título baiano de 2016. Ele estreou nas finais e segurou a onda no gol. Foto: Walmir Cirne/Coofiav/Gazeta Press

Também acho de uma crueldade sem fim colocar tanta culpa em Caíque pelo momento do Vitória. Ele cometeu tantas falhas quanto todo o elenco do time Rubro-negro. A defesa é muito frágil. Só neste ano já foram 39 gols sofridos em apenas 31 partidas disputadas. O Vitória conseguiu tomar gol de todo o tipo de time: de elencos sem divisão a outros das séries D, C, B e A. A defesa do Vitória não tem qualquer preconceito quando o assunto é tomar gol. E essa responsabilidade não pode cair inteiramente nos ombros do goleiro. O problema é muito mais no fundo.

Culpabiliza-se muito mais um goleiro de 21 anos do que os 22 conselheiros que, ao bel-prazer, fugiram de sua atribuição de fiscalizar e cobrar da diretoria e renunciaram ao cargo como forma de “protesto com a maneira em que o clube está sendo conduzido”. Certamente que correr desse turbilhão é uma solução que ajudará muito o Vitória neste momento (essa última frase contém ironia).

Foto: Mauricia da Matta/EC Vitória

Todavia, a tragédia já está feita. Caíque está queimado e, até que se contrate outro goleiro, ele segue como a primeira opção de Vagner Mancini para o gol do Rubro-negro. A bola da vez é o goleiro Elias, que já está rotulado como o terceiro goleiro da Chapecoense. Eu não acho que seja uma contratação ruim, apesar de não ser nenhum jogador lá tarimbado e que chegue de pé na porta e luva na mão para assumir a camisa 1. Sobre Elias, eu tenho certeza que é um goleiro melhor que Jandrei, atual titular pelas bandas de Chapecó. Acredito que seja uma contratação interessante para arrefecer os ânimos da torcida e dar um tempo para Caíque sair dos holofotes, ter um pouco de paz e recuperar a confiança.

Muitas dúvidas ainda existem. Outras seguirão por muito tempo. A certeza que eu tenho, por agora, é que Caíque é um dos menores problemas do Vitória. Para que as coisas na Toca do Leão se ajeitem, será necessário muito trabalho e em coisas que vão muito além de contratações. Isso demanda tempo, inteligência e paciência: três atributos que andam em falta no Vitória.

Vinicius Nascimento
Sobre Vinicius Nascimento 182 Artigos
Estudante de Comunicação (UFBA). Colunista e repórter da Juazeirense e Fluminense de Feira.

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