Entrevista com líder do projeto Vulkão Karatê e seus alunos

Foto: Resenha na Rede

O Resenha na Rede bateu um papo com o professor de Karatê, Edílson Montes, fundador do Vulkão Karatê Clube, que fica localizado no Nordeste de Amaralina. O professor falou sobre o inicio de sua trajetória no esporte, as mudanças e dificuldades que ele encontrou nesse período e seus projetos para o clube, o destaque de seus alunos em competições baianas e brasileiras e sobre o projeto que instalou o karatê no bairro. Professor Edmílson realizou um sonho nutrido há anos, qual seja,  trazer os esporte à comunidade de forma acessível, para que crianças e jovens que não tinham condições de custear esse esporte consideravelmente caro, pudessem treinar e competir.

Resenha na Rede: Como o Karatê surgiu na sua vida?

Professor Edílson Montes: O karatê surgiu porquê eu jogava muita bola e sempre que tinha baba todos brigavam, então eu fui aprender uma arte pra me defender.

RR: E então a escolha foi o karatê? Porque?

Professor Edílson Montes: A escolha foi o Karatê pois era um esporte mais potente e não precisava de nada, e até mesmo o pessoal menor, lutava e sempre ganhava.

RR: A partir de que idade você começou a treinar?

Professor Edílson Montes: Eu comecei com 18 anos, comecei no Dojô Cruz Vermelha, que ficava ali no Campo Grande, depois, com o tempo como o pessoal era do Acrópole, nós nos mudamos pro Acrópole que era na baixa dos sapateiros.

RR : Quais os ensinamentos que o Karatê lhe trouxe e que você tenta passar pra os seus alunos quando chegam aqui na academia?

Professor Edílson Montes: Veja bem, primeiro que dentro do Karatê a gente tem aquela autoconfiança em nós mesmos, então a gente busca essa confiança, depois a disciplina, posteriormente é que você começa a praticar o Karatê, a disciplina você vai adquirindo no dia a dia e na rigorosidade dos treinamentos, dos exercícios e assim começa a ficar disciplinado, não é que a gente queira, é algo do esporte mesmo.

RR : Qual a importância de ter um projeto como esse pra população aqui do Nordeste de Amaralina?

Professor Edílson Montes: Veja bem, o projeto era uma ideia minha, quando eu comecei no Acrópole todo mundo já tinha um Dojô nos bairros e eu achava que o pessoal carente não praticava o esporte por falta de condições. Por ser um esporte muito caro e agora está ficando mais caro ainda por ser olímpico, então pensando que o pessoal carente não praticava por não ter essas condições financeiras, tentei trazer para o Nordeste de Amaralina, chegando aqui surgiu um projeto para os atletas que se destacaram, queriam viajar e não tinha condições, eu fui em uma reunião do Viva Nordeste, e nessa reunião eu fui tentar buscar um patrocínio, duas passagens para que meu filho viajasse pra disputar o Sul-americano. Chegando lá e após a conversa fui convidado pela representante pra fazer parte do projeto, e eu fui. Lá ela perguntou se eu gostaria de fazer parte da equipe, eu disse que sim mas eu seria agente de esporte, nessa função eu entregaria bola durante o sábado e domingo pra os meninos jogarem. Durante a semana eu ficava parado, eu e Gilvan sentados na sala sem fazer nada e foi ai que tivemos a ideia de fazer o karatê nas escolas. Então surgiu o Karatê que era um projeto nosso, o Boxe que era o carro chefe do projeto e eu desenvolvi o karatê no bairro, nisso o projeto Viva Nordeste parou e nós demos continuidade, hoje criamos um grupo através de um projeto que abraça o Boxe, Karatê, o Judô, a Natação, Futebol, e a Ginástica para os adultos. Então ai surgiu essa ideia pra desenvolver e continuar o projeto, chegando na Sudesb (Superintendência de Desportos da Bahia) eu consegui alguma coisa, na época era Bobô que era o superintendente da Sudesb, ele abraçou a ideia e a gente desenvolveu esse projeto com todas essas modalidades no Nordeste de Amaralina.

RR: Vocês contam com o apoio de alguma instituição ou empresa?

Professor Edílson Montes: Não, empresa nós não temos, nós temos a Sudesb, via o Deputado que sempre procura nos ajudar, de vez em quando dá uma pausa por conta de algumas documentações, como parou agora em outubro e estamos aguardando retornar. Enquanto isso, corremos atrás pra continuar com o apoio pois as aulas são grátis, mas os materiais só com condições maiores por serem muito caros, como kimono, luva, protetor de boca, viagens, caneleira, sapatilha, coquilha e outras coisas que são necessárias pra desenvolver o esporte.

RR: Como é feito o trabalho de iniciação do jovem quando chega pra participar do karatê?

Professor Edílson Montes: O jovem quando chega na academia ele passa por uma aula normal sendo observado, fazendo geralmente a parte física, dentro da parte física é que ele vai começando a entender alguns passos e crescendo aos pouquinhos, começa engatinhando e vai se desenvolvendo, um projeto lúdico, após isso começa a iniciação e depois o alto rendimento.

RR: Qual a Federação em que o clube é vinculado?

Professor Edílson Montes: Federação Baiana de Karatê (FBK) que é ligado ao comitê olímpico. Esse é o Karatê que vai realmente pras Olimpíadas, cheguei a participar da federação do Karatê Do Tradicional (Shotokan) no inicio, logo quando comecei, depois apareceu a WKF e agora surgem várias outras federações, como a InterStilo a qual também fiz parte, pois quando meu professor saiu da FBK foi para ela e nós como alunos o acompanhamos e com o tempo, após desentendimentos, eu retornei para a FBK. Voltei pela Nipon, depois por um clube Sinai que fica ali em Narazé, com o professor Hamilton, mas não deu certo e ai eu decidi fazer meu clube sozinho que é o Vulcão Karatê clube, que é do Nordeste de Amaralina mesmo, Nordeste de Amaralina e em Camaçari com a professora Denise Guedes.

RR: Como se chamava o seu professor? Fora ele você tem alguma outra referencia no karatê?

Professor Edílson Montes: Ivo Rangel, falecido há dois anos. Vários, quando começamos a treinar tem vários que são nossos amigos e se destacam e começamos a cobrar de nós mesmos a performance dele, tem Serjão que mora no Imbuí, Zé Antônio que chamamos de soldado, da Tradicional, Serjão porque ele era grande, professor Rui também, entre outros.

RR: Quais os principais campeonatos e títulos conquistados pelo clube?

Professor Edílson Montes: Bom, pelo clube vários, esse ano mesmo nós estamos em segundo lugar no baiano, e tem também o brasileiro que a gente empresta os atletas pra federação pra competir, então uns 10 ou 12 daqui estão na final do brasileiro, que vai ser em outubro na Arena do Judô em Lauro de Freitas e ai alguns atletas daqui vão participar.

RR: Quantos atletas tem na academia?

Professor Edílson Montes: É rotativo, porque nós temos aqui mais ou menos 250 a 300 alunos atuando. Mas tem vários que param e voltam, sempre rotativo, não é fixo.

RR: Você continua competindo ou esta dedicado apenas a treinar os alunos?

Professor Edílson Montes: É só treinar mesmo, por agora só treinar e arbitragem, quando eu ia competir não tinha ninguém pra disputar, então eu decidi parar.

RR: Algum aluno seu se destacou a nível nacional ou internacional?

Professor Edílson Montes: Hoje em dia ele não esta mais conosco,  mas se destacou internacionalmente, e nacionalmente. Tem uma camada aqui de atletas que são campeões brasileiros, estão classificados para disputar o prêmio novamente. Manuele, faixa amarela, campeã baiana de Kata e Kumite; Eduardo campeão nas mesmas modalidades e está classificado para disputar a final do brasileiro em Kumite, outros como Matheus, André que fez parte da equipe sub 21, campeão baiano, masculino e feminino, com a Nipon sendo campeã e nós ficamos em segundo lugar e a equipe do master, onde fomos campeões no master feminino.

RR: Quais as modalidades executadas nos campeonatos?

Professor Edílson Montes: Kumite e Kata, só tem essas duas e quando se faz o Kata em equipe, realizamos o Bunkai.

RR: Como funciona o exame de faixa e qual a importância do mesmo na sua visão?

Professor Edílson Montes: Programamos o exame de faixa aqui em nossa academia sempre de 6 em 6 meses, fazemos um em junho e outro no fim do ano, novembro ou dezembro. Pra academia é importante pois a medida que atleta vai se graduando, pode  separar as categorias, por exemplo, ele chega aqui na faixa verde, até essa faixa ele disputa campeonato de Lóvos, faixa roxa acima disputa Divisão Especial, então pra ele chegar em algum lugar, amanhã ou depois, como ser professor, ele tem que ter uma graduação de faixa preta.

RR: Então nos campeonatos a divisão de faixa é de branca a verde, e de roxa a preta?

Professor Edílson Montes: Exatamente o que eu falei, agora em alguns torneios que fazemos, como vai ter agora da Salvador, a gente faz de branca a vermelha, laranja e verde, e roxo, marrom e preta, da Salvador que vai ser assim.

Ao final do bate-papo, o Resenha na Rede conversou também com dois atletas com destaque em nível nacional, campeões baianos e brasileiros, falamos um pouco do sonho em competir pelo esporte e as dificuldade enfrentadas por eles durante a trajetória no Karatê. Os alunos Matheus e Graciele falaram de sua iniciação no esporte e suas vitórias.

Foto: Resenha na Rede

RR: Como o karatê surgiu na sua vida e como você o conheceu?

Mateus: Através de uma amiga da minha mãe, ela me levou pra uma escola, no começo eu não gostava, depois de um tempo eu fui passando a gostar, mudando meu modo de vida e até hoje eu tô aqui, tem uns 11 anos que eu faço o esporte, comecei com 7.

Graciele: Eu conheci o karatê através de minha irmã, ela fazia quando o karatê ainda era em outra sede, ai ela me trouxe, no começo eu não gostava, entrei em 2009 e fiquei um mês mais ou menos e sai. Em 2014 eu voltei e fui me desenvolvendo, começando a gostar, porque o Karatê é mais do que um esporte, é um estilo de vida, então você muda a sua vida totalmente. Comecei aos 13 anos.

RR: Qual a maior dificuldade enfrentada no esporte até hoje?

Mateus: Benefícios pra manter as minhas viagens.

RR: Patrocínio, por exemplo, é muito difícil encontrar?

Graciele: Sim, o patrocínio, mas ainda assim a gente tem a ajuda do projeto.

RR: Conseguem conciliar o esporte e os estudos?

Mateus: Tranquilo, porque o esporte é a noite e assim eu tô livre de manhã e a tarde.

Graciele: Sim, sem problemas!

RR: Já fizeram alguma viagem representando o estado em algum campeonato, Brasileiro por exemplo?

Mateus: Já, muitos, já fui pra São Paulo, Espírito Santo, Sergipe, foram vários estados.

Graciele: Já, ano passado eu entrei na seleção baiana e viajei pra São Paulo, Minas Gerais e esse ano pra Pernambuco.

RR: Como mulher, numa arte marcial você acha que é mais difícil ou você se deu bem de cara?

Graciele: Com certeza não, nunca vai se dar bem de cara, não é! Você ser mulher é como se tivesse outra barreira pra ultrapassar, porquê as pessoas costumam sempre dizer “ah, você é mulher, num esporte de luta, o sexo frágil”, sempre isso. Mas eu tô ai né,  treinando pra mostrar pra eles que não é isso!

Após a entrevista o professor deu inicio ao um treino tático onde utilizou o condicionamento e golpes do esporte, em um revezamento de duplas dos seus alunos, para os habituar com adversários de diversas idades e tamanhos, o professor mostrou-se extremamente dedicado e rígido ao longo do treino, levando os seus alunos a uma dedicação além da esperada.

O Vulkão Karatê Clube é um projeto dele, um sonho realizado ao longo de muitos anos de luta, para ajudar a comunidade do Nordeste de Amaralina e resgatar jovens da criminalidade e das drogas, mostrando para eles que a realização de um sonho está distante somente o quanto você está disposto a lutar por ele.

Osvaldo Barreto
Sobre Osvaldo Barreto 884 Artigos
Advogado. Estudante de Jornalismo (Estácio). Editor, colunista e repórter do Resenha na Rede. Apaixonado pela escrita e pelo Rubro-negro.

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