Edigar, me desculpe.

Edigar, me perdoa se um dia te cornetei. Já dizia a célebre frase: "Eles não sabem o que fazem". Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

O ponteiro marcava vinte e quatro minutos do segundo tempo. Obviamente, os ponteiros de cronômetros e relógios daqueles torcedores -como eu- caxias, que marcam o tempo já que o placar eletrônico da Arena Fonte Nova não nos oferece essa avançada tecnologia desde o final da Série B de 2016. Pelo menos os números do placar nos é oferecido: e ele apontava que o Bahia vencia o jogo por 1 a 0. Havia pouco mais seis minutos que Zé Rafael fizera o gol responsável por abrir o placar. O décimo primeiro do atual camisa 10 defendendo o Bahia.

Voltamos ao minuto vinte e quatro. Edigar Junio já tinha ensaiado o que pareceu inevitável aos vinte minutos e cinquenta e dois segundos, quando recebeu passe de Zé Rafael e soltou a tamancada para o gol. Assustou Martín Silva e levou as mãos à cabeça. Imagino o dilema que se passa na cabeça de um artilheiro em seca de gols. A sensação só não deve ser tão intensa quanto o alívio de balançar as redes e tirar esse peso das costas.

Aos vinte e quatro minutos e trinta e sete segundos o pé direito de Vinícius atingiu a bola. Era um cruzamento partindo da direita após falta cometida pelo time vascaíno. Dois segundos foram suficientes para a bola sair do pé direito do camisa 29 e chegar até a cabeça do camisa 11. Camisa 11 que atende por nome e sobrenome: Edigar Junio. Sim, sem o “r”. É Junio mesmo! Aos 24 minutos e 40 segundos a bola já beijava a rede do Vasco. Edigar vitimava um goleiro, na Fonte Nova, pela vigésima terceira vez. Naquele exato momento ele ultrapassou Kieza e se tornou o maior artilheiro da Fonte Nova após a sua reconstrução. Todos os 23 gols com a camisa do Bahia.

Edigar é o cara da Fonte Nova. Ninguém fez mais gols na Fonte pós-reconstrução do que o camisa 11. Foto: Reprodução/ASCOM do Bahia

Edigar Junio já dispensa apresentações. É um jogador voluntarioso, versátil e de um ano para cá vem mostrando sua veia goleadora com a camisa do Bahia. É fácil e gratificante admirá-lo. Mas, no meu caso, nem sempre foi assim. No início da trajetória dele no Bahia, ainda no ano de 2016, eu era um corneteiro daqueles chatos em relação ao futebol de Edigar. Falava que errava tudo, que não dava sequência e todas essas coisas que o corneta faz questão de frisar como se fosse o dono da verdade absoluta.

Edigar foi subindo de produção, ainda jogando como extremo, pelos lados do campo. Um grande problema eram suas recorrentes lesões. Edigar teve lesões sérias em todas as temporadas no Bahia, com exceção deste ano (deixo registrada aqui a minha gratidão aos céus e espero não lançar a famosa zika após falar isso!). Isso prejudicava uma sequência de jogos. Nos meados de 2016 eu já não cornetava tanto, mas ainda não tinha tanta confiança em Edigar como aquele jogador para decidir jogos. E assim seguiu até 2017. O encanto começou naquele BaVi na semifinal da Copa do Nordeste. O Bahia não tinha opções de centroavante já que Hernane, o então titular, se lesionou e Gustavo cumpria suspensão. Guto foi obrigado a colocar Edigar de centroavante, como ele já tinha jogado no Joinville, onde foi artilheiro. E Edigar, que dizia não ser muito chegado a jogar como referência, jogou muito. Mostrou que o Bahia tinha opção de centroavante e essa opção era ele.

Os dois últimos títulos do Bahia contaram com gols de Edigar Junio. Ano passado, fez na finalíssima do Nordestão contra o Sport. Neste ano, foi no BaVi do Campeonato Baiano. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

Naquela semifinal, Edigar Junio não fez gol, mas foi peça fundamental para mudar drasticamente a dinâmica do Bahia, que jogava de forma engessada até ali. A primeira das consagrações de Edigar foi também na Copa do Nordeste. Na finalíssima ele recebeu um lindo passe de Armero e encobriu o goleiro do Sport, Magrão, com categoria e frieza de centroavante. O gol deu ao Bahia um título que não vinha há 15 anos.

Veio o Campeonato Brasileiro e logo na estreia ele deixou um golzinho, dessa vez contra o Atlético-PR. Vieram alguns jogos “na seca” e o fantasma que o assolava retornou: uma lesão séria, que o tirou de boa parte do Campeonato Brasileiro. Nesse tempo sem Edigar, o Bahia tentou várias opções para a referência. Gustavo foi dispensado; João Paulo e Rodrigão jogaram, mas logo perderam espaço. Edigar só voltou na 27ª rodada do Campeonato Brasileiro na partida contra o Palmeiras, que marcou a estreia de Paulo Cezar Carpegiani no comando técnico do Tricolor. E ele, como centroavante, foi fundamental para o Bahia buscar um resultado de 2 a 2 após sair perdendo por 2 a 0.

O resto da história todo o mundo já sabe.

Foto: RODRIGO GAZZANEL/FUTURA PRESS

Edigar inevitavelmente conquistou minha admiração. O camisa 11 Tricolor encarnou a camisa e batalhou bastante para conquistar a moral que tem hoje com a torcida. Eu, que o cornetei bastante, dei o braço a torcer facilmente a partir do momento em que ele mostrava em campo o quanto joga bola e o quanto é capaz. Edigar trouxe títulos e é um dos representantes de uma mudança na mentalidade no Bahia, que nos últimos 4 anos voltou a ser campeão, conseguiu acessos e vem se superando temporada após temporada.

Humildemente, peço desculpas a Edigar Junio por não acreditar tanto quanto deveria quando ele chegou ao Bahia. E quero agradecê-lo por queimar minha língua.

Voa, Edigar. Siga abrindo zagas com a camisa do Bahia. De coração, espero que você siga jogando muito, fazendo gols e se torne um ídolo do Bahia. Algo que se tornou raro por aqui.

Valeu, EJ11!

Lista dos gols de Edigar Junio na Arena Fonte Nova:

2016
Bahia 3×1 Ceará – 1 gol
Bahia 4×2 Goiás – 1 gol
Bahia 3×0 Paraná – 1 gol
Bahia 3×1 Globo-RN – 1 gol
Bahia 2×1 Bahia de Feira – 2 gols
Bahia 4×0 Galícia – 1 gol
Bahia 3×1 Juazeirense – 1 gol

Na sua temporada de estreia, em 2016, Edigar foi vice-artilheiro do time com 16 gols. Só ficou atrás de Hernane. Ajudou o Tricolor na campanha do acesso à Série A. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

2017
Bahia 3×1 Santos – 1 gol
Bahia 2×2 Atlético-MG – 2 gols
Bahia 2×0 Ponte Preta – 1 gol
Bahia 2×1 Vitoria – 1 gol
Bahia 1×0 Cruzeiro – 1 gol
Bahia 1×0 Sport – 1 gol
Bahia 6×2 Atlético-PR – 1 gol
Bahia 3×0 Sergipe – 1 gol
Bahia 2×0 Fortaleza – 1 gol

Contrariando as expectativas do escriba que, aqui, tenta se redimir dos seus pecados, Edigar decisivo em várias partidas. Finais e clássicos têm sido a especialidade do camisa 11. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

2018
Bahia 3×0 Vasco – 1 gol
Bahia 2×1 Vitória – 1 gol
Bahia 5×2 Altos-PI – 2 gols
Bahia 2×1 Náutico – 1 gol

O Bahia se tornou carente de ídolos. Edigar já está na sua terceira temporada pelo Tricolor e é um forte candidato a assumir esse posto. Contrato dele vai até dezembro de 2019. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia
Vinicius Nascimento
Sobre Vinicius Nascimento 243 Artigos
Estudante de Comunicação na UFBA, produtor do programa Os Donos da Bola na TV Band e faz de tudo no Resenha na Rede. Oficialmente, editor e repórter do site. Tricolor, viciado em estádio e feliz pela própria natureza.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*