Edigar Junio deixa o Bahia alcançando o feito de ser o primeiro ídolo após a geração de Preto e Nonato

A fé não costuma faiá. A de Edigar, menos ainda. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

Salvador, 12 de Janeiro de 2019

Edigar,

Quando você chegou ao Bahia quando clube ainda engatinhava sua própria reconstrução. Não sei se você sabia, mas aquele ano de 2016 foi justamente quando o clube vivia o momento mais difícil desde a democratização que aconteceu em 2013 e culminou na eleição de Fernando Schmidt – o primeiro da história do clube a ser escolhido pela torcida.

O time resistiu a duras penas na Série A de 2013, mas não teve a mesma sorte em 2014 e acabou rebaixado. Mas pior do que cair, é não conseguir subir e foi justamente isso que aconteceu em 2015, quando o clube acabou a Série B em uma vergonhosa nona colocação após somar 58 pontinhos mixurucas. Sete pontos a menos que o América-MG, quarto colocado daquele ano.

Veio 2016 e veio Edigar. Sim, você mesmo. Jogando como ponta no time de Doriva você foi vice-campeão baiano e vice-artilheiro da competição com 5 gols. Depois, já sob o comando de Guto Ferreira, marcou mais oito gols na Série B e ajudou a colocar o Bahia de volta na Série A. Lembra disso? Pois eu lembro bastante. Era um corneta fervoroso de seu futebol e tenho testemunhas que provam.

Acho que concordamos no seguinte: seu grande ano por foi aquele 2017. Por um acaso do destino foi deslocado para a função de centroavante em um BaVi – Hernane, titular, fraturou a perna de forma grotesca no mesmo clássico que o reserva Gustavo entrou e não ficou nem dez minutos em campo antes de ser expulso. O jeito era te colocar como referência: e que jeito maravilhoso. Foi seu o gol do título do Nordestão contra o Sport dentro da Fonte Nova.

Edigar, acho que acima de tudo você é um homem de fé. Acreditou no Bahia, que acreditou em ti quando o contratou. E fez jus à história do clube em todos os momentos que esteve em campo. Nunca faltou entrega, nunca faltou fé. Talvez por isso que acreditou em um passe de três dedos duvidoso de Armero antes de encobrir Magrão, um dos maiores goleiros da história do futebol nordestino, como se fosse um qualquer. Talvez pela fé que você acreditou ser possível buscar um empate contra o Palmeiras após sair perdendo por 2 a 0 em pleno Pacaembu. Com direito a gol de cabeça e tudo isso voltando de lesão. Nada tira da minha cabeça que se aquele lance de Régis no último minuto parasse em seus pés ainda ganharíamos aquela partida!

Edigar carregou o Bahia com todas as forças. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

Certamente pela fé que você encarnou a mística do Bahia e foi buscar resultados tardios, já perto de estourar os acréscimos. Foi assim que cutucou a bola para o fundo da rede de Caíque em um BaVi empatado após os 45 minutos. Foi assim que tu subiu em câmera lenta, tal qual Dadá Maravilha fazia, contra o Fluminense em pleno Maracanã para empatar uma partida que perdíamos jogando muito mais bola.

Talvez pela fé que naquele 2017 mágico você moveu montanhas no Campeonato Brasileiro e marcou incríveis 10 gols em 10 jogos. Palmeiras, Vitória, Ponte Preta, Fluminense, Avaí, Fluminense, Santos… nenhum desses foi capaz de te parar naquele ano. Para ficar perfeito só faltou aquele pênalti contra a Chape lamber o barbante…

A fé não costuma faiá. A de Edigar, menos ainda. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahi

Em 2018 chegaram os recordes. Maior artilheiro da Fonte Nova pós-reforma? Edigar. E como não podia deixar de ser, teve mais gol decisivo, mais gol em clássico, mais vibração, mais fé! O gol contra o Ceará me marcou especialmente porque naquele dia você não jogou absolutamente nada. Mas acreditou e deu tudo de si até o último minuto. E como ídolo que é, presenteou a torcida com uma cartada de mestre: um golaço de letra que mandou o rebaixamento para bem longe na Série A deste ano. Depois ainda veio um outro recorde, dessa vez coletivo: melhor posição do Bahia na história do Brasileiro.

Ninguém fez mais gols do que Edigar na Fonte Nova reformada. Foto: Felipe Oliveira/EC Bahia

Confesso que sua saída me entristece. Sonhava em te ver batendo mais recordes, alcançando mais marcas. Os 50 gols eu já achava uma questão de tempo. Assim como uma dobradinha de títulos. Quem sabe uma primeira página na Série A? Porra, Edigar! Esse ano era o da afirmação. E mais do que ninguém você merecia viver e construir mais esse capítulo.

Mas infelizmente não será assim. A vida tem dessas e sua escolha é perfeitamente compreensível. Ainda assim, não menos dolorosa. Queria te ver unanimidade é reconhecido como o ídolo que você é. Isso mesmo, ídolo. Pra mim, depois de Nonato você foi verdadeiramente o grande atacante da história recente do clube. Porque não veio só de passagem e foi embora na primeira oportunidade. Você ficou e quis ficar. E honrou o clube não apenas com palavras ou declarações bonitas em redes sociais. Na verdade, você sempre foi um cara muito na sua. Falou pouco e fez muito. Muito mesmo.

A história vai dar conta de te reconhecer como merece. Disso eu tenho certeza.

No mais, pode ir e boa viagem. O Bahia e todos os seus torcedores e devem muitas alegrias. Por você, Edigar, só há o sentimento gratidão.

E um pedido para que volte logo.

Sem mais,

Vinícius Nascimento.

Vinicius Nascimento
Sobre Vinicius Nascimento 258 Artigos
Estudante de Comunicação na UFBA, produtor do programa Os Donos da Bola na TV Band e faz de tudo no Resenha na Rede. Oficialmente, editor e repórter do site. Tricolor, viciado em estádio e feliz pela própria natureza.

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