Canabrava, uma história que foi do lixo à dignidade

Foto: Bruno Concha/Secom/PMS

O bairro de Canabrava, atualmente chamado de Nossa Senhora da Vitória, foi um bairro construído entre fazendas e chácaras, próximo da Avenida Paralela e hoje está cercado por bairros como São Marcos, Pau da Lima, Sete de Abril, Trobogy e São Rafael. Na década de 70 passou a ser sede do aterro sanitário da cidade de Salvador, situação que perdurou por cerca de 30 anos. Mas em 1985 a história do bairro passou a ganhar novo contexto, tendo em vista que, o Esporte Clube Vitória ganhou uma área para construção do seu estádio.

.Na década de 70, Canabrava, assim como outros bairros de Salvador, surgiu na periferia da cidade, todavia, diferentemente do que acontecia naqueles, a Prefeitura tentou fazer uma ocupação organizada. O bairro foi dividido em três etapas, que foram ocupadas por famílias desabrigadas em consequência de uma forte chuva que ocorreu em Salvador, posteriormente pessoas vítimas de outras tragédias e desocupações chegaram ao bairro, como explica o líder comunitário Alex de Alcântara Nonato:

“As famílias que estavam abrigadas na Fonte Nova, após desabamentos que ocorreram em Salvador foram as primeiras do bairro. Algumas ficavam em um galpão, outras em barracas do exército, até que o Prefeito Renan Baleeiro e o Padre Hugo fizeram doações de casas e lotes na primeira etapa. A 2ª etapa foi construída quando houve a desocupação no bairro da Federação, exatamente na Ferreira Santos, pois iriam erguer um tanque da Embasa. Um tempo depois houve o desabamento no bairro da Preguiça e trouxeram essas pessoas para completar a ocupação da segunda etapa”, afirmou Alex.

Na década de 70, os primeiros moradores de Canabrava, se depararam com o lixão que havia sido transferido do bairro do Uruguai. Com o passar do tempo, o lixão serviu como fonte de renda para as famílias que ocupavam a região e os moradores de outras localidades. É o que afirma Derivaldo Matos, sambista, morador do bairro há 38 anos:  “Pouca gente da primeira e segunda etapa trabalhou no lixão, mas os que trabalhavam não foram a favor da saída, pois conseguiam ali suas rendas até mesmo para brincar o carnaval”, recorda o sambista.

A realidade do lixão era de um local onde jovens, velhos, homens, mulheres e crianças disputavam com os urubus a possibilidade de sustento da família. Muitos badameiros levavam seus familiares para catar o lixo, ensacando papelão, vidro, plástico. O ex badameiro Arnaldo Silva, 68 anos, conta a reportagem que “Tudo ali tinha seu preço, tirava 150 cruzeiros no final de semana, era uma ajuda para comer” afirmou o ex-catador.

A Chegada do Vitória na Comunidade

Canabrava começa a receber atenção do poder público em 1970, quando o então prefeito Clériston Andrade doou aos Esporte Clube Vitória um terreno próximo ao depósito de lixo da cidade. Já em 1972, a direção do Vitória comprou da família Paiva Lima uma chácara ao lado do terreno, almejando a ampliação do projeto.

A terraplanagem do solo ocorreu em 1985, quando o Governador João Durval viabilizou recursos para a construção do Estádio, que fora inaugurado em 11 de novembro de 1986, com um empate em 1 a 1 entre Vitória e Santos.

Dia da inauguração ( Jogo Vitória 1 x 1 Santos ainda sem refletores)
Jogos só durante o dia. Foto: Facebook Vitória.

O ex-presidente do clube, Paulo Carneiro, relembra o período de construção do centro de treinamento e estádio, ressaltando que o clube sempre tentou caminhar junto com a comunidade:

“O Estádio foi inaugurado politicamente e antes mesmo de acabar a construção o Vitória já treinava ali. Entre 1989 e 1990 houve realmente a preocupação por parte do clube em retirar o lixão dali. Nesse período, Canabrava era tratado como um bairro miserável, com um cenário triste dos catadores de lixo. Em 1996 o lixão deixou Canabrava na gestão do Prefeito Antonio Imbassahy, com meu político, visto, que era Deputado”, diz Paulo Carneiro.

Neuza Aparecida, 58 anos, sobreviveu por muito tempo do que era retirado do lixo e reconhece que a chegada do clube ao bairro foi essencial para mudanças na região.

“Já subi e desci muito aquele amontoado de lixo. Tirava o que comer, o que vestir e hoje tenho orgulho de dizer que sou daqui. A gente sabe que se não fosse o Vitória a gente não tinha muita melhora não. Essa rua nova aí, ajudando o pessoal que morava do lado de lá e não tinha como passar para o lado de cá”, conta Neuza.

A Av. Mario Sérgio, inaugurada neste ano (2018), pelo Governo do Estado,  foi um apelo antigo do Esporte Clube Vitória, para melhorar o trânsito da região em dias de jogos, mas virou mais uma possibilidade de acesso para os moradores do bairro de Nossa Senhora da Vitória. Paulo Carneiro reconhece que a obra foi mais um avanço para região e para o clube:

“Essa via expressa que recebe o nome de Mario Sérgio, liga a Paralela ao Estádio Manoel Barradas teve total influência política de Rubro Negros, como do então Secretário Fábio Mota, que conseguiu através do Ministério do Turismo recursos para construção daquela estrada. E essa via é mais um passo importante para urbanização daquele bairro”, conta o ex-presidente.

Em 31 anos, desde a inauguração do estádio, Canabrava ganhou novas vias de acesso. A Via Regional liga a região a BR e Cajazeiras, a Av. Aliomar Baleeiro dá acesso a bairros como 7 de abril. Mas foi estrada Canabrava – Paralela, inaugurada na gestão da Prefeita Lídice da Matta, que deu novos ares para comunidade.

“A referência hoje é o bairro próximo da Faculdade Jorge Amado ou próximo do Barradão. A estrada Canabrava-Paralela trouxe dignidade para gente, os ônibus não precisavam mais passar dentro do chorume, não ficávamos mais com o rótulo do “povo do lixo”, devido ao mau-cheiro que impregnava o ônibus. Claro que temos que reconhecer que se não fosse o Barradão, possivelmente essa estrada nunca teria saído do papel”, afirma o líder comunitário.

Uma história marcada pelo preconceito

Aos poucos Santa Maria da Vitória vem se desassociando do estigma dado ao bairro do lixo, novas referências vêm sendo atribuídas a localidade.

“Pela discriminação que os moradores de Canabrava sofriam, quem morava no Boliviano (Três Mangueiras) não dizia que morava em Canabrava. O lixo saiu em 1996, com Antônio Imbasshay, mas por muitos anos ouvíamos que éramos moradores do lixo. Superar esse preconceito foi duro. Tem uns 10 ou 12 anos que o povo começou a desassociar Canabrava do lixão. Mas ainda existe briga, quem mora no condomínio Nova Cidade não quer ser associado como Canabrava, até o ônibus vem escrito Canabrava-Nova Cidade”, diz o morador Ilvanir Jose de Almeida, morador do bairro a 43 anos.

Informação que também é confidenciada pelo morador Derivaldo Matos:

“O povo xingava, chamava os moradores de cheiroso e a saída do lixão foi um marco para comunidade. Não sou Vitória, mas acho que a presença do Vitória contribuiu na transformação, com a abertura da via Canabrava – Paralela, foi para melhorar o Barradão e contribuiu para gente, como essa Av. Mário Sérgio, foi para ajudar o Vitória, não foi para beneficiar os moradores, mas acabou beneficiando”, explica Derivaldo.

Avenida Mário Sergio. Foto Camila Souza.

Ponto de divergência

O reconhecimento dos moradores em relação as conquistas alcançadas em virtude da presença do Esporte Clube Vitória é perceptível, contudo, há quem diga que existe um certo distanciamento do clube com a comunidade. Para alguns moradores, o clube poderia oferecer mais oportunidades com trabalhos sociais.

“A minha reclamação com o time é que os dirigentes poderiam aproveitar as crianças da comunidade, porque eles não vão ter custos com elas. Fomos lá, conversamos com Many (diretora responsável pelo social do EC Vitória), mas o futebol masculino e feminino só tem um garoto e uma garota no projeto “Vitória Cidadania” e essa é uma luta nossa. Já saíram reportagens no passado dizendo que o Vitória tinha uma parceria com bairro, ajudando creche, dando emprego, trabalho social com a população e isso não é verdade. Qualquer empresa grande tem que ter sua parte social, mas não vemos a comunidade ser ajudada pelo clube” garante o líder da associação.

Foto: Osvaldo Barreto/Resenha na Rede.

O ex-presidente do Esporte Clube Vitória, reconhece que ao longo da história o clube poderia ter feito mais, mas por outro lado entende que o clube atende como pode as questões sociais.

“Com as mudanças políticas dentro do Clube, não se pode saber os interesses que o Clube tem para a região, mas participar da vida daquela comunidade deveria ser obrigação de qualquer gestão. Afinal, o Clube é uma instituição com finalidade pública e não pode se afastar de suas funções sociais”, disse Paulo Carneiro.

A posição da atual gestão é totalmente contrária a acusação. A coordenadora do “Vitória Cidadania”, programa de incentivo ao esporte para crianças e adolescentes, Many Gleize, afirma que o clube cumpre seu papel social não só com Canabrava, mas com todas comunidades da região.

“A importância de desenvolver trabalhos com comunidades em torno do Barradão é enxergar que o clube tem uma responsabilidade social com a comunidade que existe em nosso em torno. Podemos destacar que houve uma melhora absurda na região, em relação a urbanização, bastar observar como era há 30 anos e o que se tornou. Desenvolver trabalhos na região é importante para o clube porque entendemos que por estar instalado aqui, temos obrigação de melhorar a vida das pessoas de alguma forma. E o processo de iniciação esportiva em diversas modalidades é a forma que encontramos de oferecer mesmo até uma recreação”, explica Many Gleize.

O clube abriga hoje 300 crianças e adolescentes no projeto “Vitória Cidadania” e elas vem de bairros que cercam o estádio, como Pau da Lima, São Marcos, 7 de abril, São Rafael e Nossa Senhora da Vitória (Canabrava).

“Em relação a abrir as portas para as crianças de Canabrava, em caro com tristeza a declaração da Associação. As portas do clube estão abertas para essas crianças. Tivemos um contato com pessoas que se intitularam como representantes da Associação, solicitamos uma reunião e eles não retornaram. Deixamos a disposição o telefone do clube e o meu, todos os dias de projeto estamos lá e não houve aproximação, tudo que for pleiteado pela associação vamos verificar a possibilidade de cumprir. Mas acredito que a iniciativa tem que partir deles, na abertura do projeto fomos na Cidade-mãe, fomos nas escolas públicas da região convidar as crianças, o que não dá é sair batendo na porta de cada criança para treinar, mas há uma divulgação no site oficial do clube e estamos de braços abertos para recebe-los”, rebate Many Gleize.

O Bairro de Nossa Senhora da Vitória conta hoje com posto de saúde, ruas asfaltadas, Além da Creche e Pré-escola Primeiro Passo e tem recebido obras para construção da Praça da Juventude, na Rua Artêmio Valente. Canabrava deverá receber mais um importante equipamento para os cidadãos. Com recursos federais, por meio do Ministério dos Esportes, Salvador deverá ter uma pista de atletismo profissional, a ser instalada em um terreno próximo ao Estádio Manoel Barradas.

Por: Osvaldo Barreto e Emilly Giffon

Osvaldo Barreto
Sobre Osvaldo Barreto 882 Artigos
Advogado. Estudante de Jornalismo (Estácio). Editor, colunista e repórter do Resenha na Rede. Apaixonado pela escrita e pelo Rubro-negro.

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